Cada segundo importa
Ou como uma série de TV me fez pensar sobre tempo, arte e IA
Quem assistiu à série The Bear (ou O Urso), na Disney Plus, já pegou a referência. “Cada segundo importa”, diz uma placa azul no meio da cozinha num dos restaurantes mais chiques de Chicago. O sentido da frase é ambíguo: à primeira vista, reforça o sentimento de pressa e desespero constante vivido pelos personagens da série não só naquela, mas em todas as cozinhas representadas. Errou? Vai fazer de novo na metade do tempo. Acertou? Vai fazer de novo na metade do tempo também, porque hesitar por um segundo implica em atrasar toda uma esteira de produção e correr o risco de ver a lista de pedidos se transformar numa bola de neve.
Mas “cada segundo importa”, naquela parede, vem de outro sentimento quase oposto: o de que parar e contemplar cada pequeno detalhe da vida à sua volta é tão importante quanto produzir o que quer que seja em ritmo de máquina. “Cada segundo importa”, então dê a todos eles a atenção devida, entende? E isso, muito mais do que a correria alucinada ao coro de “Yes, chef!”, fez muito sentido pra mim.
Trabalhar com desenho e, especialmente, estudar pintura (na Quanta Academia de Artes, fica a dica) têm me mostrado que certas coisas simplesmente levam tempo. E às vezes levam muito tempo, o que é um pouco complicado nesse mundo apressado que a gente construiu. Mas andei percebendo que não é só a pintura — a vida real tem um tempo radicalmente diferente da vida que a gente aprendeu a acreditar que é real olhando pelos filtros da internet. Um desenho não leva 30 segundos pra ser feito, e não fica bom na primeira tentativa. Uma pintura não demora 60 segundos. Um prato “rápido” muitas vezes exige que a preparação comece na noite anterior, e uma reforma de verdade leva meses, não dois dias como nos reality shows.
Mas aí a gente chega na euforia da Inteligência Artificial, e na possibilidade real de ter um trabalho “artístico” pronto em milésimos de segundos. Não um trabalho feito por um artista — esse está lá girando telas no Instagram pra ver se ganha mais seguidores —, mas um trabalho muito mais próximo, talvez, do que o cliente imaginou para si. E isso dá uma dorzinha no coração, mas é aquela tragédia merecida — como Philip K. Dick ensinou, a gente só teme que a máquina seja confundida com um humano porque nos tornamos confundíveis com uma máquina. E o que a gente espera da arte, em alguns casos, é facilmente realizável pela máquina mesmo — é um retrato do Harry Potter no estilo do Studio Ghibli; é o seu cachorro no estilo da Disney ou da Pixar; é uma folhinha genérica com um contorno mais ou menos deslocado que talvez tenha sido original um dia, mas que hoje aparece idêntica em 10 de cada 10 buscas por “pintura na parede” no Pinterest.
A gente gosta tanto de repetição que está caminhando pra um futuro eternamente requentado do que já produzimos num passado cada vez mais distante e esquecido.
Mas voltemos aos segundos, que importam.
Não acho que a IA deva ser demonizada, per se. Ela só precisa ocupar o lugar certo, que é o de ferramenta. Uma tecnologia que te ajude a fazer uma linha mais reta, a espelhar um desenho, a colorir de um jeito diferente, a corrigir uma falha ou expandir um pouco as bordas de uma fotografia, isso é auxílio, isso é ferramenta. Uma tecnologia que faça todo o trabalho por você a partir do trabalho de outros é plágio, é colar na prova, e é ruim pra todo mundo. Quem faz se prejudica porque não exerce a arte, não aprende, não desenvolve habilidade nenhuma; quem recebe se prejudica porque empobrece seu repertório, porque se acostuma a uma imagem-padrão meramente eficiente, feita a partir de dados, sem nenhum pingo de interpretação pessoal, deslize, toque pessoal, história, motivo, emoção, sem a mão leve ou pesada de um artista, porque não tem ninguém passando por momento de vida nenhum enquanto trabalha naquela criação.
E sabe qual é a grande sacada dos segundos? É saber que, por trás de cada produto feito por uma pessoa, tem uma quantidade imensa de segundos dedicados exclusivamente àquela peça, por mais simplezinha que seja. Tem as dezenas de rascunhos que o artista fez antes de apresentar algumas opções para o cliente, tem as outras tantas versões que ele testou e aprimorou antes de finalizar seu trabalho, tem o momento da dúvida, do erro, da escolha dos materiais, a atenção ao detalhe e ao todo. Tem os anos de pesquisa e estudo antes de tudo isso. Porque a vida real é lenta, e isso não devia ser um problema. Mas talvez por se esquecer disso é que a gente tenha passado a ver a arte como “hobbie” — aquilo que se faz quando se tem tempo livre, tempo pra jogar fora sem transformar em dinheiro.
por trás de cada produto feito por uma pessoa, tem uma quantidade imensa de segundos dedicados exclusivamente àquela peça
Aceitar que as coisas levam o tempo que elas levam é um desafio diário que todo mundo devia praticar, porque traz a gente de volta para a nossa humanidade. Podemos viver uma grande parte das nossas vidas online, mas ainda somos o que somos — pessoas, convivendo por aí com outras pessoas, experimentando esse mundo meio misterioso durante algumas dezenas de anos, depois deixando alguma coisa para os próximos. Se a gente não estiver presente em cada um dos nossos segundos, se a gente terceirizar toda e qualquer tarefa só pra conseguir fazer mais e mais coisas sem atenção… quem é que vai estar no nosso lugar?


além do tempo de trabalho, tem também o tempo de maturação. não dá para viver tudo de maneira imediatista.
Adorei!!! 👏👏