Lendo Moby Dick
Aquele em que ele fala de tudo, menos da baleia branca
Desde que expulsei meus livros semi-começados do quarto e os coloquei num nicho de “próximas leituras” junto à estante da sala, tenho conseguido avançar um pouco mais rápido nesse tijolinho chamado Moby Dick. Ainda assim, faltam-me umas duzentas páginas: passei ontem à noite da quinhentésima.
Quinhentas páginas e nem sinal da baleia branca. Que é um cachalote, na verdade, mas é branco. E macho. Acho esquisito falar “o Moby Dick” e não “a Moby Dick”, mas é o que é. Essa é apenas uma das muitas informações que agora eu sei sobre o clássico e que antes, quando apenas ouvia falar “daquele livro sobre o cara que caça a baleia”, não fazia ideia: por exemplo, que o tal de Ismael nem é quem está caçando Moby Dick! Ele é parte da tripulação, apenas, mas é o capitão Ahab que tem a rixa pessoal com o baleião, e ele obriga todo mundo a seguir seu plano de vingança depois que já estão em alto mar. Espertinho, esse Ahab.
Também venho aprendendo sobre os detalhes mais horrendos da prática de caça a baleias, sobre o uso do seu óleo para acender lampiões e das barbatanas para aramar saias e espartilhos, e sobre as diferenças entre cachalotes e baleias francas (se bem que dessa última parte confesso que não guardei nada). E a leitura tem sido assim: às vezes presto atenção e aprendo um punhado de coisas gloriosamente inúteis; às vezes a cabeça se distrai e percebo que só passei os olhos pela página. Ainda assim, digo que está valendo a experiência.
Ler um calhamaço de 1851 em 2026 é um exercício de curiosidade e paciência. Curiosidade para olhar para um mundo completamente alienígena ao nosso (o de um navio baleeiro dando a volta ao mundo), sob um ponto de vista igualmente distante (o de um homem americano que viveu quase duzentos anos atrás, inclusive viajando em baleeiros e, segundo a Wikipedia, passando uma temporada numa tribo de canibais — o que justifica a naturalidade com que ele fala desses personagens no livro).
É preciso curiosidade, entre outras coisas, para continuar disposta a conhecer esse ponto de vista mesmo depois de ler sobre “a imagem mais feminina e negativa de submissão e padecimento”, ou sobre “a primazia da brancura”, que dá ao “homem branco o domínio ideal sobre todas as tribos de pele escura”. Pois lemos esses trechos, reviramos os olhos e seguimos, em parte questionando se essas são as visões do autor ou do personagem-narrador — que, pra mim, parece que é um cara perdido que não tem muita noção de quem é e está tentando se encaixar, sempre se esforçando um pouco demais para justificar seus pontos. E ele claramente tem uma admiração acima da média por marinheiros sem camisa, mas não sei se ele sabe disso.
Ismael, aliás, é um dos motivos pelos quais continuo no livro, mesmo depois de um capítulo ou dois sobre a anatomia da cabeça da cachalote. Seus comentários sarcásticos são uma diversão, ora criticando a hipocrisia da Igreja ou do ser humano em geral; ora comentando algum detalhe patético com a seriedade de um especialista. É em parte graças a esse narrador cheio de opiniões que, apesar de extremamente informativo, o livro não é cansativo: há respiros, há alfinetadas, há humor, e ajuda que os capítulos são curtos (então você aguenta um assunto mais chato porque sabe que vai terminar logo).
É claro que, mesmo assim, é preciso um tanto de paciência para atravessar quinhentas páginas sem encontrar o antagonista da história. Mas, depois das primeiras duzentas, você entende por quê. O autor, Herman Melville, escreve seus parágrafos exatamente do mesmo jeito como escreve seu livro: deixando a afirmação principal para o finalzinho, preenchendo as linhas anteriores com uma sucessão de “apesar de”; “embora” ou “no entanto”. É como se ele quisesse que você realmente entendesse o contexto, e todas as suas variáveis, e tudo o que está em jogo, antes de revelar o que quer que seja que ele está tentando te dizer.
E esse exercício de paciência constante é outro fator que tem me mantido no livro: em tempos de internet rasa, com vídeos de um minuto e informações picotadas, conseguir se aprofundar num assunto (mesmo que esse assunto sejam baleias) é uma vitória. Um sinal de que a gente ainda é capaz de mergulhar em alguma coisa do começo ao fim, nas partes boas e nas partes ruins.
Além disso, sempre vale lembrar do Ítalo Calvino respondendo à pergunta “Por que ler os clássicos?”: ora, simplesmente porque ler é melhor do que não ler.
Off-topic
Andei pintando as paredes da minha casa! <3
Pra ver tudo o que eu inventei (até agora), dá uma passada lá no meu Instagram!
Vejo vocês na próxima.






confesso que "moby dick" não me pegou tanto... tive muita dificuldade de superar as partes técnicas e chegar ao fim do livro.